Hoje, tive a certeza de que, realmente, estar na hora e no lugar certo podem fazer toda a diferença entre se dar bem ou não ou mal. Quem se lembra do filme "Efeito Borboleta" (2004, com Ashton Kutcher) já viu, de forma talvez um pouco exagerada, que dobrar uma rua antes pode gerar efeitos devastadores. Não que eu acredite muito nisso, na maioria das vezes, mas de vez em quando, até que pode ser verdade. Outro exemplo mais recente que ilustra a ideia é o recente "O Curioso Caso de Benjamin Button", com Brad Pitt e Cate Blanchett, ainda nos cinemas. Você já viu o filme né? Pra eu poder contar. Tem uma cena que mostra vários acontecimentos paralelos - enquanto a bailarina Daisy (Blanchett) é mostrada dançando, conversando e saindo do ensaio, uma sequência de outras ações, como um homem que acorda cinco minutos atrasado, levam ao atropelamento de Daisy e à ruína de sua carreira na dança.
Bom, e o que isso tudo tem a ver com o que eu disse no começo? Hoje, não aconteceu qualquer coisa que pudesse modificar muito minha vida. Não encontrei um amigo que, coincidentemente, trabalha para um grande jornal, e que também gosta muito de mim, e além disso tudo, resolveu me indicar para uma vaga de qualquer cargo bom. Também não resolvi alterar o caminho que eu faria, nem evitei dessa forma, como poderia ter acontecido, ser atropelado. Mas vi outra pessoa sendo atropelada. Foi assim: depois de quatro meses das chuvas de granizo que detonaram meu carro em Belo Horizonte, levei o carango pro conserto. O cara que fez o martelinho-de-ouro veio me buscar em casa e fomos pra oficina. Peguei o carro, entrei na rua e segui, até fazer uma curva à esquerda e perceber que a seta, só a do lado esquerdo, estava com defeito. Resolvi voltar pelo mesmo caminho, para reclamar. Menos de cinco minutos depois que saí da oficina, voltando pela mesma rua, só escutei uma freada, um barulhão e vi uma bicicleta voando por cima de um carro estacionado. Eu estava logo atrás do lugar, saí do carro sem nem lembrar de fechar os vidros, na chuva, para ver se ajudava em alguma coisa. O dono da bicicleta era um homem entre uns 40 e 50 anos, vestia camiseta azul e uma calça jeans suja que dava dó, e estava inconsciente no chão, sangue escorrendo pelo braço esquerdo, e um saco de carne recém comprada jogado ao lado. Não deu tempo de eu ajudar em muita coisa, só de perguntar se alguém já tinha chamado ambulância.
A gente fala às vezes que quando tem acidente, as pessoas tem uma curiosidade meio mórbida em ficar vendo a desgraça alheia, mas não é só isso. O interesse em ajudar é real. As pessoas ao redor recolhendo os pertences do homem, guardando a bicicleta e até levando a carne pra dentro de casa, e quem sabe, até colocar em uma geladeira... Por outro lado, teve um cara já decretando o falecimento do ciclista da carne, como não conseguisse sentir o pulso dele. E o motorista? Esse sim, devia estar xingando até a décima-sétima geração da família da pessoa que, quem sabe, tenha a maior parte da responsabilidade por ele ter estado dirigindo aquele carro, naquela hora, e tentado fazer aquela curva. E xingando em inglês. Quando cheguei, ele falava ao celular, na língua inglesa, explicando o que havia acontecido. Isso me chamou um pouco a atenção na hora, porque se envolver em um acidente fora de seu país-natal deve ser um tanto mais desconfortável. Lembrei também de um rapaz brasileiro que conheci nos Estados Unidos, muito tranquilo, que acabou sendo acusado, junto com outros três brasileiros, de embebedar e estuprar uma garota americana em uma festa. Pelo que sei, ele se safou do caso, e acho que foi tudo armação dela pra ferrar com os quatro.
Voltando ao local do acidente de hoje - não tinham passado 10 minutos que eu estava ali, passa do outro lado da rua o cara do martelinho-de-ouro em um carro. Se eu não tivesse parado pra ver o que havia acontecido, teria dado tempo de chegar à oficina e ver meu problema. Fui pra lá de qualquer jeito. Mas logo que estacionei o carro pra esperar até que ele chegasse, o problema havia desaparecido! E não voltou mais, até agora. Resolvi ir embora. Foi o problema da seta que me fez voltar e presenciar o acidente. Parei pra ver o que estava rolando, o martelinho passou. E fiquei sem ver o problema da seta, que, milagrosamente, desapareceu.
Trailer A hora do pesadelo
1 dia atrás

